Vou fazer-te uma confidência:aprendi o ofício dos sonhos em versosque se colam ao corpo, no fascínio ardentede olhos teimosos de sonetos.Há um espaço meu dentro de cada poema,um espaço verde e cheio de areia,um lugar de mudez, agasalhado de incertezas.Aprendi a voar em linhas, indecisa no azuldas canetas. Irada e louca aprendi a decifrarenganos, nomes invernosos e pesados,desfigurei névoas futuristas, dedilhei a medoo estalar das pedras e das águas.Parei no frio de uma manhã qualquer edescobri as coordenadas dos meus sonhos:perto, perto como as tuas mãos nas minhas.Vou fazer-te uma confidência:a tua presença é o tempo que volta,é sinfonia que se cola ao corpo, no fascínio ardentede olhos teimosos de sonetos.Há um espaço meu dentro de ti,um espaço verde e cheio de areia,um lugar de mudez, agasalhado de incertezas.Nas coordenadas dos meus sonhos,encontrei as tuas.Para a minha querida irmã.
Vestirás o meu nome em cada diaestilhaçado e o teu corpo seráa conclusão de um enorme abismo:um espaço inútil e pleno de vazio.Não estarei contigo nesse Invernode árvores lentas e noites ardidas.Adormeci periodicamente num incandescentelugar de faíscas e silêncios.Vestirás o meu nome em cada diaestilhaçado e o teu corpo sentiráo abismo limado pelo norte que te foge,como o gelo inabalável das minhas mãos.Um dia acordarás amontoado de frio,com o meu nome longe, muito longe.E as tuas vestes não encontrarão maisum lugar cativo em minha casa.
Para onde foi o amor?O amor, náufrago deste Abril interminável,deste mar escarlate como fogo em tropel!Encenaste vezes sem conta o amor,notícia de memórias onde o sol é agoraproibido de nascer.Inutilmente te pergunto:Para onde foi o amor?Deixei-me encostar às manhãs frias,criando raízes absurdas e largas.E aqui fiquei...Aqui, onde o frio me abraçamesmo em noites de vestido vermelho.Alguém canta.A brisa traz-me tons de agonia crepuscular.E eu... de vestido vermelho.Num encarnado abismo de palavras te pergunto:Para onde foi o amor?O amor!Para onde foi?Estou só, assumidamente...
Durante estes sete anos, passei por muitas coisas com a tampa da esferográfica. Hoje, quando olho para ela, quando a descrevo nestas linhas, já não é apenas a tampa de uma esferográfica. Lembro-me de senti-la no bolso no momento em que a minha filha nasceu e eu estava lá, segurava a mão da minha ex-mulher. A tampa da esferográfica estava lá. Vi a minha filha acabada de nascer. Tinha no bolso a tampa da esferográfica.Quando a minha mãe foi operada, quando o médico me chamou para falar comigo, tinha a tampa no bolso. Nunca me esqueço da tampa. Antes de sair de casa, vejo sempre se tenho as chaves, os cigarros, a carteira e a tampa da esferográfica. Estive com ela em muitos países. Muitas vezes a coloquei nos pequenos tabuleiros onde se colocam os objectos que se tem no bolso, antes de passar na máquina que apita, antes de entrar num avião. Aconteceu esquecer-me da tampa da esferográfica em casa de amigos, em cafés, em restaurantes.Passadas algumas horas, quando voltei atrás, um dos empregados disse “nós aqui nunca deitamos nada fora”. O empregado abriu uma gaveta atrás do balcão, ergueu a tampa na palma da mão e disse “foi isto que perdeu?” De cada vez que isso aconteceu, agradeci e fui-me embora envergonhado sob olhares e comentários sussurrados. Com os meus amigos, telefonei-lhes e, aqueles que não me conhecem bem, ficaram admirados. “A tampa de uma esferográfica?” Não foi apenas uma vez que tive de andar a mudar móveis em casa dos meus amigos até encontrar a tampa caída em qualquer canto de pó, ou enfiada dentro de um sofá.A tampa esteve comigo nos momentos em que recebi as melhores notícias. Rodei-a na mão depois de receber as notícias que, para mim, foram mais terríveis. Por si só, a tampa não me dá sorte ou azar. Por si só, é algo que me acompanha, que vai comigo para os sítios onde eu vou. Considerando as coisas importantes que aconteceram comigo nos últimos sete anos, é algo que partilha a minha história. Olho para ela e sinto que ela entende. Esteve tanto tempo comigo, passámos por tantas coisas juntos que, quando alguma coisa boa ou má acontece, sinto a tampa da esferográfica dentro do bolso e sinto que ela entende. Ela sabe o que está por trás de cada coisa que acontece. A tampa da esferográfica, como eu, sabe quais foram os acontecimentos passados que fizeram com que aconteçam as coisas que acontecem.Quando estou à espera de alguém ou de alguma coisa, quando não estou a fazer nada, quando o meu pensamento procura assuntos para pensar, seguro a tampa da esferográfica e, olhando para ela, imagino onde esteve antes de a ter encontrado numa rua de Paris. Imagino quem terá sido a pessoa que lhe deu a forma de tampa de esferográfica. Deve ter existido um momento em que esta tampa esteve entre muitas tampas exactamente com a mesma cor, exactamente com o mesmo formato, muitas tampas acabadas de fazer. Deve ter existido um momento em que esta tampa serviu para tapar uma esferográfica. Imagino se terá sido comprada num supermercado ou numa papelaria. Imagino quanto tempo terá demorado até ter sido comprada. As noites que passou numa prateleira. Imagino a mão da pessoa que a escolheu entre outras esferográficas com tampas todas iguais. Apesar de imaginar e quase ter a certeza que essa foi a sua história antes de mim, nunca vi uma tampa igual a esta. Já a exprimentei em muitas esferográficas sem tampa e nunca serviu perfeitamente em nenhuma. Fica demasiado larga ou demasiado apertada. Nunca encontrei nenhuma onde servisse perfeitamente.Acontece-me pensar também que, inevitavelmente, chegará um dia em que a minha vida e a vida da tampa da esferográfica se irão separar. Poderá ser num dia em que me esqueça dela em casa de amigos, num café ou num restaurante. Chegarei para procurá-la e ninguém entenderá as minhas palavras. “A tampa de uma esferográfica?” Poderá ser no instante em que morrer. A respiração a parar definitivamente nos meus pulmões e as pessoas que me conheceram, a minha família, os meus amigos, a minha filha quando for mais crescida, a mexerem nas coisas que deixei. Entre elas, esta tampa que, um dia, encontrei numa rua de Paris, que guardei no bolso durante anos e que, depois de mim, continuará em algum lugar.Enquanto escrevo estas palavras, há instantes em que páro e fico a olhar para ela. Seguro-a na palma da mão. É muito leve. Quando está parada na palma da minha mão quase que não a sinto. Por andar há sete anos no meu bolso, a sua superfície está um pouco baça. Sete anos a tocar em chaves, a tocar em todas as coisas que carrego nos bolsos, a tocar no tecido dos bolsos. Encontrei-a numa rua de Paris. Agora, está comigo aqui. Para onde quer que vá, carrego-a sempre comigo. Há sete anos, quando a encontrei no chão, nunca poderia imaginar que nos iríamos tornar tão necessários um ao outro. Eu, que alterei o seu destino, sou a única pessoa que se preocupa com esta tampa de esferográfica e, no mundo, não há nada, ninguém, nenhum amigo que me conheça tão bem, que saiba tão bem quem eu sou como esta tampa de esferográfica.José Luís Peixoto
"Uma brisa ergue-se no interior da terra e chega a mim, à consciência de mim: o meu rosto, os meus lábios, o meu corpo tocado por essa brisa. Caminho por entre essa brisa a passar por mim, como se atravessasse uma multidão invisível. A brisa, ao tocar os meus olhos, transforma-se em lágrimas que descem frias pelo meu rosto. Os meus lábios. Sinto-as e sinto a memória das vezes que chorei o desespero parado, mais triste, de lágrimas que descem lentamente pelo rosto. O tempo passa por mim como qualquer coisa que passa por mim sem que a consiga imaginar e as lágrimas, que eram apenas a brisa a tocar os meus olhos, começam a ser lágrimas de desespero verdadeiro. Paro no passeio. O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca, uma faca profunda, a lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim."José Luis Peixoto; excerto de "Lunar", in Antídoto - pág 56
Hoje vi a tua sombra e ela doeu-me amargamente. Gostava de poder espalha-la no vento desta noite, nas chamas deste chão vazio, no silêncio onde a tua sombra se arrasta comigo. Gostava de ter tempo, muito tempo, tempo suficiente para decifrar e interpretar a tua aparição. Tempo para naufragar memórias, tardes acabadas, apertos de mãos sem fim.Sulco lágrimas...E a tua sombra continua a trazer-me crescentes indiferenças e ausências. Ergue-se em cada esquina estampada de orgulho e falsas palavras cruzadas.Dizem-me que não és tu que te ergues nessas esquinas do tempo. Dizem-me que a perseguição é já poeira. E dizem, novamente, que não és tu que te ergues nessas esquinas.Eu esfrego os olhos e belisco o corpo ainda dormente...E no devaneio dos passos recordo poemas onde pensei amar. E eles apagam-se em ti, na procura de ti, desta alucinação, deste suicidio, desta ânsia, deste tempo perdido, destes espasmos de revolta, destes últimos ecos profundos.Ainda assim, essa sombra tão profundamente anónima continua a assaltar todos os cantos mais íntimos de mim a cada noite como esta. E eu continuo a acender cigarros e a recriar a tua existência.E aqui estou eu, estrategicamente posicionada para receber as tuas mãos...Mas dizem-me que não é a tua sombra que se ergue nas esquinas da minhas vida.
Já não te amo como no primeiro dia. Já não te amo.No entanto continuam em volta dos teusolhos, sempre, estas imensidades que rodeiam oolhar e esta existência que te anima no sono.Continua também esta exaltação que me vempor não saber o que fazer disto, deste conheci-mento que tenho dos teus olhos, das imensidadesque os teus olhos exploram, por não saber o queescrever sobre isso, o que dizer, e o que mostrarda sua insignificância original. Disso, sei apenas oseguinte: que já não posso fazer nada a não sersuportar esta exaltação a propósito de alguémque estava ali, de alguém que não sabia que viviae de quem eu não sabia que vivia, de alguém quenão sabia viver dizia-te eu, e de mim que o sabiae que não sabia que fazer disso, desse conhe-cimento da vida que ele vivia, e que também nãosabia que fazer de mim.Dizem que o tempo do pleno verão já se anun-cia, é possível. Não sei. Que as rosas já ali estão,no fundo do parque. Que às vezes não são vistaspor ninguém durante o tempo da sua vida e queficam assim ali no seu perfume esquartejadasdurante alguns dias e que depois se deixam cair.Nunca vistas por esta mulher solitária queesquece. Nunca vistas por mim, morrem.Estou num amor entre viver e morrer. É atra-vés desta ausência do teu sentimento que reen-contro a tua qualidade, essa, precisamente, de meagradares. Penso que apenas me interessa que avida não te deixe, outra coisa não, o desenvolvi-mento da tua vida deixa-me indiferente, nãopode ensinar-me nada sobre ti, só pode tornar--me a morte mais próxima, mais admissível, sim,desejável. E assim que permaneces face a mim, nadoçura, numa provocação constante, inocente,impenetrável.E tu não sabes.Marguerite Duras