quinta-feira, outubro 26, 2006

Almas Gémeas


«(...)As almas gémeas quase nunca se encontram, mas, quando se encontram, abraçam-se. Naqueles momentos em que alguém diz uma coisa, que nunca ouvimos, mas reconhecemos não sei de onde. E em que mergulhamos sem querer, como se estivéssemos a visitar uma verdade que desconfiávamos existir, de onde desconfiamos ter vindo, mas aonde não tínhamos conseguido voltar. O coração sente-se. A alma pressente-se. O coração anda aos saltos dentro do peito, a soluçar como um doido, tão óbvio que chega a chatear. Mas a alma é uma rocha branca onde estão riscados os sinais indeléveis da nossa existência. (...)

Gémea não é igual. É parecida. Não é um espelho. É uma janela. Não é um reflexo. É uma refracção. (...) O desejo de encontrar uma alma gémea não é o desejo de reafirmarmos a unicidade da nossa existência através de outro que é igual a nós. É precisamente o contrário. É poder descansar dessa demanda. No fundo, todos nós duvidamos que tenhamos uma alma. Senão não falávamos tanto dela.

Uma alma gémea é a prova que não estamos sozinhos. (...) O estado normal de duas almas gémeas é o silêncio. Não é o "não ser preciso falar" - é outra foma de falar, que consiste numa alma descansar na outra. Não é a paz dos amantes nem a cumplicidade muda dos amigos. Não precisa de amor nem de amizade para se entender. As almas acharam-se. Não têm passado. Não se esforçaram. Estão. É essa a maior paz do mundo. Como é que um ninho pode ser ninho doutro ninho? Duas almas gémeas podem ser.

Como é que se reconhece a alma gémea? No abraço. (...) Quando duas almas gémeas se abraçam, sente-se o alívio imenso de não ter de viver. Não há necessidade, nem desejo, nem pensamento. A sensação é de sermos uma alma no ar que reencontrou a sua casa, que voltou finalmente ao seu lugar, como se o outro corpo fosse o nosso que perdêramos desde a nascença. (...)

As almas gémeas revelam-se uma à outra. Não são iguais. Mas revelam-se de forma igual. Como se tivesse surgido, de repente, uma língua que só os dois conseguissem falar. (...)

Toda a angústia do eu se dissipa. É-se inteira e naturalmente aceite. Sem perguntas. Sem condições. Sem promessas. E mergulha-se no outro como se já não fosse preciso existirmos.»





Miguel Esteves Cardoso

quarta-feira, outubro 25, 2006

Eu tinha na boca palavras para dizer. E guardei-as.
Comecei um longo monólogo, caminhando pelas calçadas, sem rumo, perdida na chuva como tantas outras noites. E senti-me vento, nevoeiro e labirinto. Pensei em abrigar-me em qualquer canto, mas a chuva chamava por mim e eu já estava molhada, de nada serviria abrigar-me em qualquer canto... se o tivesse feito não teria nada a contar dessa noite.
O facto de ter palavras guardadas perturbava-me a cada passo. Apetecia-me uma bebida gelada que me ajudasse a compreender tal explosão de sentimentos. Apetecia-me receber uma carta ou um convite, um abraço, qualquer coisa que me impedisse de voltar para casa.
Mas nessa noite não recebi cartas, convites ou abraços. Voltei para casa, sozinha e completamente molhada, sonhando com sonhos alheios, tentando encontrar-me neles, querendo encontrar a estrada, o caminho, o jardim...
Já em casa, receei a falta de cores. Era necessário aumentar o som da música, dançar horas e horas... oferecer palavras por dizer! Era necessário... compreender aquela chuva, aquele fogo, aquele grito.
E adormeci... ao som do vento do meu coração.
Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


Pablo Neruda

domingo, outubro 22, 2006

Alguém beijou as minhas mãos,
aterrorizadas segundos a fio.

Ah, como tremem sabendo-se tuas!
Medos reclusos estreitando o teu corpo
alucinado.

Alguém beijou as minhas mãos.
E eu inventei a mentira no ardente encantamento
da sua boca.

Não desejei matar-te.
Queria beijos de pétalas,
abraços verdes de esperança.

terça-feira, outubro 10, 2006

Aqui te construo:
vives na extensão das minhas palavras,
nos limites graves da minha boca,
enlaçado nesta insónia permanente.

Construo-te contra o mar,
no espaço imenso da minha alma.
Conheço agora a tua ausência
e as feridas caladas desta espera.

Aqui te construo:
com o medo de quem tem beijos trancados
no peito.