quarta-feira, outubro 25, 2006

Eu tinha na boca palavras para dizer. E guardei-as.
Comecei um longo monólogo, caminhando pelas calçadas, sem rumo, perdida na chuva como tantas outras noites. E senti-me vento, nevoeiro e labirinto. Pensei em abrigar-me em qualquer canto, mas a chuva chamava por mim e eu já estava molhada, de nada serviria abrigar-me em qualquer canto... se o tivesse feito não teria nada a contar dessa noite.
O facto de ter palavras guardadas perturbava-me a cada passo. Apetecia-me uma bebida gelada que me ajudasse a compreender tal explosão de sentimentos. Apetecia-me receber uma carta ou um convite, um abraço, qualquer coisa que me impedisse de voltar para casa.
Mas nessa noite não recebi cartas, convites ou abraços. Voltei para casa, sozinha e completamente molhada, sonhando com sonhos alheios, tentando encontrar-me neles, querendo encontrar a estrada, o caminho, o jardim...
Já em casa, receei a falta de cores. Era necessário aumentar o som da música, dançar horas e horas... oferecer palavras por dizer! Era necessário... compreender aquela chuva, aquele fogo, aquele grito.
E adormeci... ao som do vento do meu coração.